Confesso que não consigo enxergar a ida de Gabriel Martinelli para a Arábia Saudita como o fim de suas chances na Seleção Brasileira. Pelo contrário. Depois do hat-trick marcado pelo Al-Hilal na goleada por 6 a 0 sobre o Al-Taawoun, começo a olhar para essa transferência de uma maneira diferente: talvez Martinelli tenha encontrado exatamente o ambiente que precisava.
É claro que existe uma diferença enorme entre Inglaterra e futebol saudita. Fingir que os níveis de competitividade são iguais seria desonesto. Mas também me parece simplista transformar o endereço de um jogador em uma espécie de sentença para sua carreira. O brasileiro acabou de deixar os Gunners depois de sete temporadas, 278 partidas e 62 gols. Foi campeão inglês na última temporada e chegou ao Oriente Médio depois de construir uma carreira relevante na Europa.
O problema de Martinelli talvez nunca tenha sido a falta de futebol
A minha impressão é que Martinelli precisava menos de uma nova oportunidade na Europa e mais de um lugar onde pudesse voltar a se sentir importante. No Arsenal, o atacante passou por momentos de protagonismo, mas também conviveu com oscilações, concorrência e períodos em que deixou de ser uma das primeiras opções ofensivas de Mikel Arteta.
No Al-Hilal, a lógica pode ser completamente diferente. O clube investiu cerca de R$ 358 milhões de euros para contratá-lo, assinou um vínculo de quatro anos e o colocou em um projeto que também conta com nomes conhecidos do Campeonato Inglês, como Ollie Watkins e Crysencio Summerville. Não estamos falando de um jogador que simplesmente desapareceu; estamos falando de um atleta de 25 anos que chegou a um novo mercado sob uma grande expectativa.
E o começo já mostra por que essa mudança pode ser interessante. Martinelli marcou três gols em sua terceira partida pela nova equipe, depois de ter passado em branco na estreia como titular. O primeiro hat-trick veio justamente em uma atuação na qual assumiu o protagonismo ofensivo que talvez tenha faltado em determinados momentos de sua passagem em Londres.
Não estou dizendo que três gols contra o Al-Taawoun deveriam ser suficientes para recolocar alguém na Seleção. Seria um argumento tão superficial quanto dizer que jogar na Arábia automaticamente elimina qualquer possibilidade de convocação. O ponto é outro: Martinelli agora tem a chance de construir uma sequência de atuações, números e confiança.
A Seleção já mostrou que o mapa não é tão importante assim
Existe ainda um detalhe que considero fundamental nessa discussão: a própria Seleção Brasileira já mostrou que não trata o campeonato em que um jogador atua como um critério absoluto. Fabinho e Ibañez, por exemplo, tornaram-se os primeiros brasileiros convocados para uma Copa do Mundo atuando na Arábia Saudita. O volante havia chegado ao Al-Ittihad depois de construir praticamente toda a sua carreira de alto nível na Europa. O mesmo se aplica ao zagueiro, revelado pelo Fluminense e que defende as cores do Al-Ahli.
E há um exemplo ainda mais recente. Na primeira convocação de Carlo Ancelotti depois da Copa de 2026, o treinador promoveu uma renovação profunda no elenco, com oito estreantes e dez jogadores atuando no futebol brasileiro. A lista também deixou claro que o italiano está disposto a observar diferentes perfis e iniciar um novo ciclo pensando em 2030.
Martinelli, inclusive, já sabe o que é ser convocado por Ancelotti. O treinador o levou para a Copa do Mundo de 2026, antes de deixá-lo fora da primeira lista do novo ciclo. Portanto, a discussão não deveria ser “Martinelli está na Arábia, então acabou”. A pergunta correta é: o que ele vai fazer a partir de agora?
Aos 25 anos, Martinelli ainda tem tempo de sobra para escrever o próximo capítulo de sua história. O hat-trick deste fim de semana não garante uma convocação — e nem deveria. Mas mostra que o brasileiro começou a responder da melhor maneira possível: jogando, marcando e assumindo responsabilidade.




