Por Cauê Martinelli
Caminhar pelas ruas de Richmond ajuda a entender rapidamente por que o local mudou a vida do técnico Ted Lasso. A cada esquina, a sensação é de que o pequeno e charmoso bairro de Londres transporta o visitante para uma acolhedora cidade do interior da Inglaterra, cercada por cafeterias, boutiques e o clássico clima nublado britânico.
Para conhecer a região onde o personagem vive na ficção, o trajeto começa com um trem partindo da estação Waterloo até a parada que leva o nome do bairro. São 25 minutos de viagem. A poucos minutos de caminhada, um pequeno corredor remete quase imediatamente ao universo de Harry Potter. Mas, ali estão o apartamento de Lasso e, à direita, uma loja repleta de itens exclusivos para quem ama o football (e não soccer). Veja no vídeo os itens e os valores pra levar uma lembrancinha da série:
Após garantir um par de meias temáticas, o banco onde Ted conversa com sua mãe na 3ª temporada surge no caminho, o mesmo local onde um torcedor o chamava “carinhosamente” de wanker. Logo adiante fica a praça onde o treinador costumava brincar com crianças e levar dribles de estudantes.
O passeio termina no pub da Mae, dona do estabelecimento na série, com o tradicional fish and chips. O local representa bem a essência de um pub inglês e preserva a atmosfera onde os torcedores do AFC Richmond se acostumaram a sofrer e sorrir. Um sorriso que os fãs voltaram a ter com o retorno da atração.
O que muda com a 4ª temporada de Ted Lasso?
Após um hiato de três anos, a história do técnico parecia ter alcançado o encerramento ideal. Ted cumpriu seu papel ao levar a equipe pela primeira vez à disputa da Liga dos Campeões, superou dramas pessoais e moldou o caráter de seus atletas.
No entanto, a produção encontrou um caminho natural para trazê-lo de volta. A nova fase começa mostrando o treinador em sua terra natal, em Kansas City, recebendo os amigos de Richmond com um típico barbecue.
Depois de impactar a estrutura do time masculino, o protagonista agora é convidado a assumir o desafio de levar a filosofia “Believe” para a equipe feminina do clube. Será que ele vai aceitar?
Por que o futebol feminino já foi proibido na Inglaterra e no Brasil?
A abordagem da série dialoga diretamente com a evolução histórica da modalidade. Entre 1921 e 1971, as mulheres foram proibidas de jogar em ligas profissionais na Inglaterra sob o argumento de que o esporte seria “inadequado” para elas.
Curiosamente, durante a Primeira Guerra Mundial, com os homens no front de batalha, foram as mulheres que mantiveram o futebol vivo no país, organizando partidas festivas para arrecadar fundos beneficentes.
No Brasil, o cenário não foi diferente. Em 1941, um decreto-lei assinado por Getúlio Vargas proibiu as mulheres de praticarem esportes incompatíveis “com a sua natureza”. A proibição só caiu em 1979, com a regulamentação oficial do futebol feminino ocorrendo apenas em 1983.
A Women’s Super League se tornou a maior liga do mundo?
No mundo real, o futebol feminino vive um momento financeiro histórico, atraindo cada vez mais atenção de atletas e público. O atacante Gabigol já declarou abertamente sua admiração pela modalidade durante entrevista ao podcast Podpah:
“Sabe o que eu amo? Futebol feminino. Meus amigos falam: ‘Pô, não é possível que você está vendo isso’, porque é óbvio que o jogo é diferente. Mas eu sou Barcelona no futebol feminino, a Alexia Putellas é minha preferida.”
A declaração ganha novos contornos com a transferência histórica de Putellas. Após 14 anos e 38 títulos pelo Barcelona, a estrela espanhola acertou sua ida para o London City Lionesses, reforçando o peso do futebol inglês.
Os números confirmam essa força. Na temporada 2023/24, a Women’s Super League (WSL) arrecadou 65 milhões de euros (cerca de R$ 391 milhões), registrando um crescimento de 34% em relação ao ano anterior, segundo dados do Deloitte Sports Business Group.
O Arsenal lidera a geração de receitas globais da modalidade. O clube inglês somou 25,6 milhões de euros (R$ 161,4 milhões) em receitas recentes, superando potências como Chelsea e Barcelona. Em fevereiro de 2026, as “Brabas” do Corinthians enfrentaram as Gunners na final do Mundial de Clubes e foram superadas por 3 a 2 em uma decisão equilibrada.

Beth Mead no duelo entre Arsenal e Corinthians pela final do Mundial de Clubes 2026 – ( Molly Darlington/Getty Images)
Na ficção de Ted Lasso, o treinador passa a ser a peça principal do projeto de Rebecca Welton, proprietária do AFC Richmond, para alavancar a equipe feminina do clube.
O AFC Richmond existe na vida real?
O AFC Richmond é um clube fictício criado para a série, fortemente inspirado no Crystal Palace. Além do bairro de Richmond servir de cenário para as gravações externas, o estádio utilizado na produção é o Nelson Road, que na vida real é o Selhurst Park, casa do Crystal Palace.
Por isso, empresários que já foram associados ao Palace na vida real, como o investidor John Textor, poderiam ser teoricamente um dos “chefes” de Lasso caso a ficção se cruzasse com o futebol real.
O conceito do personagem surgiu em 2013, em uma campanha publicitária da NBC Sports quando a emissora adquiriu os direitos de transmissão da Premier League nos EUA. Jason Sudeikis interpretou um técnico do Texas contratado para dirigir o Tottenham.
Em 2015, após se aprofundar nas regras do esporte jogando FIFA, Sudeikis desenvolveu o projeto do seriado ao lado do colega Brendan Hunt (o Coach Beard).
Com episódios semanais lançados no Apple TV, a produção reacende o sentimento de otimismo e nostalgia entre os torcedores.




