A saída de Gabriel Jesus para o Barcelona deixou uma questão importante para o Arsenal nesta temporada. Embora o brasileiro tenha perdido espaço nos últimos anos, principalmente em razão dos problemas físicos, considero que sua contribuição não pode ser medida apenas pelos gols. O atacante oferecia uma combinação de mobilidade, participação na construção e intensidade na pressão que ampliava as possibilidades de Mikel Arteta. A equipe continua contando com jogadores de qualidade no setor ofensivo, mas perdeu uma opção capaz de modificar o comportamento coletivo durante as partidas.
O Arsenal passou por mudanças importantes na janela de transferências de 2026. Além de Jesus, Gabriel Martinelli e Leandro Trossard deixaram o clube, enquanto Christos Tzolis chegou para reforçar o ataque. Essas movimentações alteraram a composição do elenco e a distribuição de características entre os jogadores disponíveis. Mais do que avaliar a quantidade de atletas, considero necessário observar quais funções podem ser reproduzidas pelos substitutos. Nesse aspecto, a saída do brasileiro chama atenção porque sua maneira de participar das jogadas era diferente da apresentada por outras referências ofensivas.
Gabriel Jesus não atuava como um centroavante limitado à região próxima ao gol. Uma de suas principais características era abandonar temporariamente a posição central para receber passes entre as linhas, aproximar os meio-campistas e participar de combinações rápidas. Esse comportamento ajudava o Arsenal a criar superioridade numérica em determinadas regiões, principalmente quando os adversários concentravam jogadores no meio. Ao atrair um defensor ou oferecer uma linha adicional de passe, o brasileiro também favorecia a movimentação dos companheiros em direção à área.
Imagine uma situação em que o Arsenal enfrenta uma defesa organizada em duas linhas compactas. Com um atacante fixo entre os zagueiros, os espaços para receber pelo centro podem ficar reduzidos. Jesus oferecia outra possibilidade ao recuar para participar da construção, permitindo que um ponta atacasse o espaço deixado às costas da marcação. Não era uma solução garantida, mas representava uma alternativa para modificar o posicionamento adversário sem depender exclusivamente de cruzamentos ou jogadas individuais.
Gabriel Jesus oferecia características diferentes de Gyökeres e Havertz
A comparação com Viktor Gyökeres ajuda a compreender a diferença entre os perfis. O sueco oferece presença física, capacidade de atacar espaços em profundidade e movimentos direcionados à finalização. Sua atuação pode ser especialmente útil quando o Arsenal consegue acelerar a circulação da bola e encontrar corredores atrás da defesa. Jesus, por outro lado, tinha maior tendência a participar das associações fora da área, aproximando jogadores e facilitando a progressão ofensiva. Não se trata de estabelecer qual deles é superior, mas de reconhecer que as duas características poderiam atender a necessidades diferentes durante uma partida.
Kai Havertz também apresenta recursos importantes para o funcionamento coletivo. O alemão sabe ocupar espaços, realizar movimentos sem bola e oferecer apoio em diferentes regiões do ataque. Entretanto, sua maneira de participar das jogadas não é idêntica à de Jesus. Enquanto Havertz pode explorar a altura e a leitura dos espaços para receber lançamentos ou atacar a área, o brasileiro demonstrava facilidade para conduzir a bola e combinar em espaços curtos. A presença dos dois permitiria a Arteta alternar soluções conforme o comportamento do adversário.

Outro aspecto relevante envolve a pressão após a perda da posse. Gabriel Jesus costumava perseguir defensores, fechar linhas de passe e participar da tentativa de recuperação ainda no campo ofensivo. Em um sistema que procura manter o controle territorial, esse trabalho pode ajudar a reduzir o tempo disponível para o adversário organizar a saída. Gyökeres e Havertz também contribuem sem a bola, mas executam essas tarefas de acordo com suas características e funções. Sem indicadores comparativos, não é possível afirmar que o Arsenal passou a pressionar pior depois da transferência.
A discussão precisa considerar, entretanto, o histórico físico do brasileiro. Jesus sofreu uma grave lesão no joelho em janeiro de 2025 e enfrentou um longo período de recuperação. Sua dificuldade para manter uma sequência de partidas reduziu a possibilidade de transformar as qualidades técnicas em contribuições constantes. Por isso, a decisão de negociá-lo também deve ser analisada sob a perspectiva da disponibilidade e do planejamento do elenco, não apenas pelo que poderia oferecer em condições ideais.
Mudanças no elenco aumentam importância da versatilidade ofensiva
A saída de diferentes atacantes modificou as alternativas de Arteta para organizar o setor. Martinelli oferecia velocidade e profundidade pelos lados, enquanto Trossard tinha capacidade de atuar em diferentes posições e participar da criação. Jesus acrescentava outro tipo de movimentação, aproximando o meio-campo da referência ofensiva. A chegada de Tzolis apresentou uma nova opção, mas não significa que todas as funções anteriormente disponíveis tenham sido reproduzidas. O desafio do treinador passou a ser encontrar combinações capazes de preservar a variedade de movimentos da equipe.
Essa questão aparece especialmente quando o Arsenal precisa alterar o andamento de uma partida. Se o adversário consegue limitar a presença de Gyökeres dentro da área, uma possibilidade é aproximar os meio-campistas para aumentar a circulação pelo centro. Outra alternativa envolve deslocar Havertz ou Eze para regiões de criação e permitir que os pontas ataquem a última linha defensiva. Gabriel Jesus poderia oferecer uma opção adicional nesse cenário, já que conseguia atuar centralizado e também participar de movimentos pelos corredores. Sua ausência reduz uma possibilidade de escolha, mas não impede a utilização de outras estratégias.
O planejamento também ganha importância diante de eventuais desfalques. A situação física de Bukayo Saka, por exemplo, pode exigir mudanças na distribuição das responsabilidades ofensivas. Madueke oferece recursos para atuar aberto pela direita, enquanto Eze pode contribuir em zonas interiores. Entretanto, a utilização desses jogadores em determinadas funções influencia as alternativas disponíveis para outros setores. Ter um atacante versátil como Jesus poderia facilitar algumas dessas adaptações, principalmente quando Arteta precisa reorganizar a equipe sem comprometer a ocupação dos espaços.
Existe, porém, um argumento importante a favor da decisão tomada pelo Arsenal. Manter um jogador que enfrenta dificuldades recorrentes para permanecer disponível não garante profundidade real ao elenco. O brasileiro precisava recuperar continuidade, enquanto o clube buscava distribuir espaço e responsabilidades entre outros atacantes. A avaliação sobre sua saída, portanto, não pode ignorar os problemas físicos nem presumir que ele estaria em condições de atuar regularmente durante a temporada.
Arsenal pode sentir falta da mobilidade, mas precisa encontrar soluções
Na minha avaliação, a principal perda está na possibilidade de alternar comportamentos ofensivos sem modificar completamente a estrutura da equipe. Contra adversários que defendem próximos da própria área, a movimentação de um centroavante pode criar espaços para jogadores que chegam de trás. Em partidas mais abertas, a presença de Gyökeres atacando a profundidade oferece outro caminho. Havertz acrescenta uma terceira alternativa, principalmente pela leitura dos espaços e pela capacidade de participar de diferentes fases da jogada. Jesus ampliava esse repertório, mas sua ausência não torna os demais jogadores menos capazes.
Também seria precipitado responsabilizar a transferência do brasileiro por qualquer dificuldade recente do Arsenal. A produção ofensiva depende da velocidade de circulação da bola, da criatividade dos meio-campistas e das decisões tomadas pelos jogadores próximos da área. Uma equipe pode apresentar problemas contra defesas compactas mesmo contando com atacantes móveis. Para estabelecer uma relação direta entre a saída de Jesus e uma eventual queda de desempenho, seria necessário comparar partidas, funções e indicadores coletivos, algo que não pode ser demonstrado apenas pela observação das características individuais.
O Arsenal possui recursos para construir um ataque eficiente com as peças atuais, mas a saída de Gabriel Jesus deixou uma alternativa tática a menos para Arteta. O brasileiro oferecia aproximações, movimentações pelos corredores e participação ativa na pressão, características que poderiam complementar o trabalho de Gyökeres e Havertz. Por isso, considero que sua ausência pode ser sentida principalmente em confrontos que exigem maior variação ofensiva. O desafio do treinador agora é encontrar essas soluções com os jogadores disponíveis, sem depender de um perfil que já não faz parte do elenco.




