Marc Cucurella poderia simplesmente ignorar a discussão sobre a intensidade do Real Madrid, mas escolheu enfrentá-la durante a Data Fifa. Depois das derrotas para Atlético de Madrid e Real Betis, o lateral rebateu a ideia de que o elenco não corre o suficiente. Para mim, sua resposta levanta uma questão interessante porque existe uma diferença considerável entre correr menos quilômetros e necessariamente demonstrar falta de esforço.
O problema para Cucurella é que existe um número difícil de tirar da discussão. Depois de sete rodadas da La Liga, o Real Madrid aparece com média de 83,46 quilômetros percorridos por partida, a menor da competição. A média geral do campeonato é de 93,37 km, enquanto o Elche lidera com 105,61 km e o Barcelona aparece logo atrás, com 104,64 km. A diferença é grande o suficiente para naturalmente gerar questionamentos.
Mesmo assim, não considero correto transformar essa estatística isoladamente em uma conclusão de que os jogadores são preguiçosos. Distância percorrida depende da maneira como uma equipe ocupa os espaços, pressiona, mantém a posse e reage quando perde a bola. O próprio Cucurella demonstrou surpresa com os dados e afirmou que sua sensação dentro de campo é justamente a contrária: o Real corre bastante.
Derrotas mudaram o tamanho da discussão
Existe outro ponto da declaração com o qual consigo entender o raciocínio do espanhol. Cucurella argumentou que, caso o Real Madrid tivesse vencido todos os jogos, provavelmente ninguém estaria discutindo quanto o time corre. A baixa quilometragem poderia até ser interpretada de outra maneira, como sinal de eficiência. Foram as derrotas recentes que transformaram aquela estatística em um problema a ser explicado.

Isso não significa, porém, que os resultados eliminem a importância dos números. O Real perdeu para o Betis e também caiu por 2 a 1 diante do Atlético no dérbi, aumentando a pressão sobre o trabalho de José Mourinho. Depois de sete rodadas, a equipe aparece na quarta colocação da La Liga e está seis pontos atrás do Barcelona. Nesse cenário, praticamente qualquer indicador negativo passa naturalmente por um escrutínio maior.
Cucurella, inclusive, não tentou fugir completamente dessa realidade. Embora tenha defendido seus companheiros, reconheceu que os dados existem e podem servir como ferramenta para melhorar. Considero essa parte de sua resposta mais importante do que simplesmente dizer que o Real corre muito. Se existe uma diferença tão grande em relação aos outros clubes, Mourinho precisa pelo menos entender por que ela acontece.
Também é preciso olhar para aquilo que acontece coletivamente. As críticas recentes ao Real não se limitam à quilometragem. Miguel Torres, ex-jogador do clube, afirmou que falta estrutura e mecanismos ao time e chegou a utilizar o próprio Cucurella como exemplo de um jogador que parece diferente dentro do atual funcionamento da equipe. É mais um sinal de que reduzir toda a discussão apenas à disposição física pode esconder questões maiores.
Real Madrid precisa entregar mais
Por isso, vejo a declaração dele como uma defesa compreensível do elenco, mas também como parte de um debate que Mourinho terá de enfrentar. Os quilômetros por jogo não provam falta de vontade, assim como dizer que os jogadores correm muito não faz o dado desaparecer. O desafio do Real Madrid é descobrir por que existe tamanha diferença e, principalmente, voltar a transformar esforço em funcionamento coletivo e resultados.




