A lesão de Bukayo Saka representa um problema que vai além da ausência de um dos principais atacantes do Arsenal. O inglês deixou o confronto contra o Bayern de Munique, pela Champions League, após sentir um problema muscular na coxa e está fora da partida diante do Everton, neste sábado (24), pela Premier League. Considero que a situação pode aumentar a responsabilidade de Martin Odegaard na organização ofensiva, especialmente pela necessidade de encontrar novas combinações pelo lado direito. Mikel Arteta terá de reorganizar o setor sem perder a capacidade de criar oportunidades em diferentes regiões do campo.
O empate por 2 a 2 com o Bayern apresentou um exemplo importante dessa possibilidade. Saka deixou o gramado aos dez minutos, sendo substituído por Eberechi Eze, que abriu o placar após receber assistência de Ødegaard. O lance demonstrou como o norueguês pode encontrar companheiros em condições de finalizar mesmo quando a principal referência ofensiva da equipe não está disponível. Declan Rice marcou o segundo gol dos ingleses, enquanto a participação de outros jogadores na construção ajudou o Arsenal a reagir durante a partida. A situação não elimina a preocupação com o camisa 7, mas oferece elementos para analisar alternativas.
Uma das principais características do Arsenal está na conexão entre Ødegaard e Saka pelo corredor direito. O capitão costuma se aproximar do atacante para oferecer linhas de passe, participar de tabelas e acelerar a circulação perto da área. Essa relação permite que o inglês receba em situações favoráveis para enfrentar marcadores ou buscar companheiros em posições avançadas. Sem essa parceria, Arteta precisará modificar algumas movimentações para preservar a fluidez ofensiva. A presença do lateral e dos meio-campistas próximos será importante para evitar que o norueguês fique isolado durante a construção.
A ausência de Saka também modifica a maneira como os adversários podem organizar a marcação. O atacante costuma atrair defensores pela capacidade de driblar, finalizar e criar oportunidades em jogadas individuais. Quando recebe aberto pela direita, sua movimentação pode provocar deslocamentos na última linha e liberar espaços para as infiltrações dos companheiros. Sem essa ameaça, o Arsenal terá de produzir vantagens por meio de aproximações e trocas de posição, evitando que a circulação da bola fique concentrada em um único jogador.
Odegaard pode assumir maior responsabilidade na criação do Arsenal
Ødegaard reúne características para ampliar sua influência nesse cenário. O norueguês apresenta qualidade para receber entre as linhas, orientar o ritmo das jogadas e encontrar passes que superam a marcação adversária. Sua participação também ajuda a conectar o meio-campo aos atacantes, principalmente quando a equipe precisa trabalhar a bola diante de uma defesa compacta. Entretanto, aumentar sua responsabilidade não significa simplesmente oferecer mais passes ao capitão. O funcionamento coletivo dependerá da presença de jogadores capazes de atacar os espaços que ele identifica durante a construção.
Uma possibilidade envolve a utilização de Noni Madueke pela direita. O atacante oferece velocidade, amplitude e capacidade de enfrentar defensores em situações individuais, características que podem ajudar o Arsenal a manter profundidade pelo corredor. Com ele ocupando a faixa lateral, Ødegaard teria condições de atuar em regiões interiores, aproximando-se para realizar combinações e buscar passes em direção à área. A parceria exigiria ajustes, principalmente porque Madueke apresenta movimentos diferentes dos utilizados por Saka. O desafio de Arteta será aproveitar suas qualidades sem transformar a substituição em uma tentativa de reproduzir exatamente o comportamento do titular.
Eberechi Eze também pode ganhar importância nessa reorganização. O inglês entrou contra o Bayern e marcou após uma assistência de Ødegaard, oferecendo um exemplo de como a aproximação entre os dois pode funcionar. Sua capacidade de receber em espaços reduzidos e aparecer perto da área permite imaginar um Arsenal com maior circulação por dentro. Em determinadas situações, Eze pode atrair a marcação e liberar o corredor para a passagem de um companheiro. Essa movimentação ajudaria a distribuir a criação e reduzir a previsibilidade das jogadas pelo lado direito.
O principal risco aparece quando Odegaard precisa se afastar demais da região ofensiva para iniciar a construção. Caso o norueguês recue constantemente em busca da bola, o Arsenal pode perder um jogador importante próximo à área, justamente onde sua visão de jogo costuma produzir oportunidades. Para evitar esse problema, Arteta terá de garantir que outros meio-campistas participem da saída e da progressão. Assim, o capitão poderá receber em posições mais avançadas e procurar os atacantes antes que a defesa adversária consiga se reorganizar.

Rice e Bruno Guimarães podem ajudar a reorganizar o meio-campo
Declan Rice pode exercer uma função importante nesse processo pela capacidade de conduzir a bola e avançar com intensidade. O inglês consegue transportar a posse entre os setores e ocupar espaços à frente quando encontra liberdade para progredir. Sua participação permitiria que Odegaard permanecesse mais próximo dos atacantes, preparado para receber entre as linhas. O equilíbrio, entretanto, dependerá da cobertura oferecida pelos demais jogadores, já que a subida simultânea de diferentes meio-campistas pode deixar espaços para os contra-ataques adversários.
Bruno Guimarães oferece uma alternativa diferente. O brasileiro apresenta características favoráveis à circulação da bola, ao controle do ritmo e à distribuição de passes durante a construção. Com ele participando da organização em regiões mais recuadas, Ødegaard poderia concentrar parte de suas ações no último terço do campo. Essa divisão também ajudaria a conectar os laterais aos jogadores ofensivos, sem exigir que o capitão participe de todas as etapas da jogada. Rice e Bruno, portanto, podem contribuir de maneiras complementares, dependendo da estrutura escolhida por Arteta.
A movimentação dos centroavantes também influencia a criação. Viktor Gyökeres pode atacar espaços em profundidade e oferecer uma referência para passes verticais, permitindo que o meia acelere as jogadas quando identifica uma oportunidade. Kai Havertz apresenta outro perfil, com capacidade de circular entre as linhas e participar das aproximações com os meio-campistas. Contra adversários que deixam espaços nas costas da defesa, a presença do sueco pode ser especialmente útil. Em partidas que exigem maior associação perto da área, o alemão oferece características que também podem favorecer o capitão.
O posicionamento de Jurriën Timber acrescenta uma possibilidade pelo lado direito. Quando o lateral avança para oferecer apoio, Odegaard, nesse cenário, teria mais de uma linha de passe e poderia variar entre a combinação curta e a bola em profundidade. O cuidado estará na proteção defensiva: se Timber avançar ao mesmo tempo que os meio-campistas, será necessário organizar as coberturas para evitar espaços durante a perda da posse.
Arsenal terá primeiro teste sem Saka diante do Everton
O confronto com o Everton será uma oportunidade para observar como Arteta pretende distribuir essas responsabilidades. Jogando em casa, o Arsenal precisará encontrar alternativas para manter a criação ofensiva sem depender das ações individuais de Saka. A utilização de Madueke pela direita, a aproximação de Eze e a participação de Odegaard em regiões centrais aparecem como possibilidades. Entretanto, a escolha de uma formação não resolverá automaticamente todas as dificuldades. O rendimento dependerá da movimentação coletiva e da capacidade de ocupar os espaços deixados pela marcação adversária.
A situação também exige cautela no planejamento dos próximos compromissos. O Arsenal enfrenta o Fleetwood Town pela Copa da Liga Inglesa na terça-feira (27), antes de seguir sua sequência de jogos por diferentes competições. Como o prazo de recuperação de Saka ainda depende de avaliação médica, não é possível determinar por quanto tempo Arteta precisará atuar sem o atacante. O treinador, porém, já tem motivos para desenvolver alternativas e distribuir responsabilidades entre os jogadores disponíveis, independentemente da duração do desfalque.
Na minha avaliação, ele pode assumir um papel ainda mais importante na criação do Arsenal, mas sua principal contribuição dependerá da maneira como Arteta organizar os companheiros ao redor dele. Madueke pode oferecer amplitude, Eze acrescenta qualidade entre as linhas, enquanto Rice e Bruno Guimarães ajudam a distribuir a construção. A lesão de Saka retira uma referência ofensiva importante, mas não impede que a equipe encontre outras soluções. O desafio será transformar essas características individuais em combinações coletivas capazes de preservar a criatividade do Arsenal sem sobrecarregar seu capitão.




