A Espanha acaba de conquistar mais uma Copa do Mundo Feminina, pela segunda vez na categoria Sub-20. A vitória sobre a Coreia do Norte nos pênaltis, depois de 120 minutos sem gols, garantiu o segundo título espanhol e recolocou a seleção no topo quatro anos depois da primeira conquista, em 2022.
Mas o troféu, isoladamente, não é o que mais chama atenção. O que realmente merece reflexão é a sequência. A Espanha não está produzindo apenas uma geração excepcional de jogadoras: há anos, suas diferentes categorias aparecem nas fases decisivas e conquistam títulos. A pergunta, portanto, não é simplesmente se a Espanha tem boas jogadoras. É se o país conseguiu criar uma estrutura que mudou sua posição dentro do futebol feminino mundial.
O título Sub-20 é apenas mais uma conquista
Em 2022, a Espanha conquistou os Mundiais Sub-17 e Sub-20. No ano seguinte, a seleção principal venceu sua primeira Copa do Mundo. Em 2024, a equipe Sub-17 chegou novamente à final mundial e, no mesmo período, a base espanhola continuou acumulando títulos continentais. Em 2025, a Sub-19 ganhou o Campeonato Europeu pela quarta vez consecutiva.
Esse encadeamento é o dado mais importante. Não se trata de uma seleção principal que encontrou uma geração dourada e passou a vencer. Existe uma linha de continuidade entre as categorias. Jogadoras que aparecem no Sub-17 avançam para o Sub-20 e, posteriormente, podem chegar à equipe principal. A própria FIFA destaca que várias integrantes da atual seleção Sub-20 passaram pelo grupo que disputou o Mundial Sub-17 de 2024.
O resultado é uma espécie de ciclo. Quando uma geração sobe de categoria, outra já está sendo preparada. E isso muda completamente a perspectiva sobre a Espanha. O país deixa de depender exclusivamente de nomes excepcionais e passa a apresentar uma capacidade recorrente de produzir equipes competitivas.
A Espanha já pode ser chamada de nova hierarquia?
Minha leitura é que sim, mas com uma ressalva importante: falar em nova hierarquia não significa dizer que a Espanha domina sozinha o futebol feminino mundial. A Coreia do Norte, derrotada justamente na final deste domingo, continua sendo uma potência impressionante nas categorias de base. Antes da decisão, as norte-coreanas eram as atuais campeãs Sub-20 e Sub-17 e buscavam o quarto título mundial Sub-20.
Estados Unidos, Japão e outras seleções também continuam formando jogadoras e disputando títulos. A própria campanha espanhola mostra que a concorrência permanece forte. A diferença está na frequência com que a Espanha aparece entre as últimas equipes de grandes torneios e, principalmente, na capacidade de conectar resultados das categorias inferiores com o desempenho na principal.
Esse talvez seja o ponto mais interessante desta conquista. A Espanha já foi campeã mundial Sub-17, Sub-20 e principal, além de ter chegado a finais europeias e mundiais em diferentes categorias. Em 2022, chegou a deter simultaneamente os três títulos mundiais femininos da FIFA, algo inédito.
Por isso, o título de 2026 não deve ser interpretado apenas como mais uma taça. Ele funciona como confirmação de uma tendência. A Espanha conseguiu transformar o sucesso de uma geração em um processo de formação contínua e, no futebol feminino, essa talvez seja a maior demonstração de força possível.




